Voz Oblíqua: Passagens e Passageiros
 
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Voz Oblíqua

Voz: [subst. fem.] Produção de sons emitidos no ser humano pela laringe com o ar que sai dos pulmões; grito; clamor; linguagem; fig. opinião; poder; inspiração; conselho; sugestão. Oblíqua: [adj. fem.] enviesado; torto; vesgo; fig. indirecto; dissimulado; ambíguo; dúbio.
 
 
 

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    Passagens e Passageiros quarta-feira, janeiro 18, 2006

    Passagens e Passageiros @ Voz OblíquaOntem fiz uma viagem de comboio, sentando-me num daqueles conjuntos de 4 assentos (dois frente a dois). Não me perguntem porquê, mas desta forma sinto uma estranha proximidade relativa aos outros passageiros.

    Uma das coisas que mais gosto nos comboios, para além do conforto, é da oportunidade que damos à nossa imaginação de voar à procura de respostas aos “porquês” dos que nos rodeiam: quem são, para onde vão, de onde vêm… Os que privam comigo sabem que, apesar de não ser distraída, sou muito pouco observadora! Mas em viagens de comboio tento-me numa arrepiante e inevitável necessidade de olhar em volta e “estudar” as pessoas que me rodeiam.

    Ouço as colegas de turma que discutem o grau de parvoíce do professor por este ter dado melhor nota à Rita do que à Filipa, quando a primeira claramente se esforçou mais. Atrás vão as duas amigas que comentam que o Ricardo, para além de giro, é inteligente, e está quase, quase, a convidar a Adriana para sair. Ah, Adriana, quanto te invejavam elas! Ao meu lado os colegas de trabalho cúmplices trocam comentários de malícia e mordacidade acerca das mulheres do escritório, olham de esguelha para as miúdas mais giras da carruagem, mandam piropos, olham em volta e envergonham-se quando pousam o seu olhar no meu, que os observa sorridente. Duas velhotas entram na carruagem cheia, e poucos são os que prontamente lhes oferecem o seu lugar. Percebo que o revisor (ou como gostávamos de lhe chamar quando éramos crianças: o pica-bilhetes) gordo, de bigode preto, sisudo e rezingão do passado deu agora lugar a uma jovem no início dos "intas" que desempenha a sua tarefa com toda a simpatia e graciosidade apoiando-se nuns saltos finos de 10 centímetros (os homens não perceberão nunca a perícia necessária para este equilíbrio).

    As pessoas entram e saem, renovam-se, dão lugar a cada vez mais pessoas giras e curiosas, e acabo sentada frente a um jovem alto, com ar de metrosexual ¹, que parece atarefado e habitué destas viagens. O telefone dele toca e a conversa gira em torno de uns projectos que deverão ser entregues no dia seguinte para que o chefe os aprove. A avaliar pelas suas palavras e pela enorme pasta preta que carregava consigo, pensei que poderia trabalhar na área de Design ou Arquitectura. De tantas vezes a porta fechar e abrir sentiu-se uma aragem de frio desconfortável, pelo que o meu “companheiro” de viagem espirrou! Prontamente olhei para si e proferi Saúde! Ele devolveu-me o olhar num misto de surpresa e curiosidade, sorriu e disse Obrigado. Voltei às páginas do meu livro – entretanto as observações haviam já terminado – e ouvi-o dizer: «Não é habitual as pessoas darem sinais de sociabilidade enquanto viajam de comboio». Este foi o mote para uma conversa que se estendeu pelos próximos 40kms. Infelizmente percebemos que as pessoas hoje em dia estão de tal modo fechadas sobre si mesmas, que é bem provável que não ouçam o que as rodeia, mesmo quando se trata de um ruidoso e estridente espirro.

    De entre as poucas hipóteses apresentadas para justificar e sustentar este egoísmo exacerbado em que nos vemos imersos, deixámos escapar uma pergunta que ficou retida no ar à espera de uma resposta genial:

    Em que parte da História Social o pormenor de dizer Saúde àquele que espirra deixou de ser um acto de educação e cordialidade, para passar a ser uma mostra de simpatia pouco usual?

    _____________________
    ¹ Termo originado nos finais dos anos 90, pela junção das palavras metropolitano e heterossexual, sendo uma gíria para um homem heterossexual urbano excessivamente preocupado com a aparência, gastando grande parte do seu tempo e dinheiro em cosméticos, acessórios e roupas de marca. @ Wikipédia

    Etiquetas:

    5 Comments:

    At 19 janeiro, 2006 00:14, Blogger Carmita said...

    Adorei este post. Viajei contigo ao ler. A tua escrita consegue ser viciante.E já agora...Saúde! :)

     
    At 19 janeiro, 2006 10:09, Blogger noisiv said...

    Wake, entao e o pós viagem???
    :P

    Bjokas

     
    At 19 janeiro, 2006 14:51, Blogger Fernanda Carvalho said...

    (És tão fácil de "ler", sabias? E é mesmo um prazer!)

    Realmente tens razão. Hoje em dia as pessoas estão cada vez mais frias, e já nem sequer um "Boa Tarde!" qdo se entra nalgum lado se ouve alguém responder...
    Há que ir tentando fazer a diferença, não concordas?
    Bj

     
    At 21 janeiro, 2006 00:10, Blogger Å®t_Øf_£övë said...

    Infelizmente por estranho que possa parecer um acto como esse já não é normal nos nossos dias.
    O que tu descreves é que é o mundo real.
    Bom fds.
    Bjs.

     
    At 05 fevereiro, 2006 21:17, Blogger Raquel V. said...

    Como sou um bicho do mato terrível, fico calada nessas situações.
    Mas por vezes - e pq agora ando pouco de autocarro - inibo um boa tarde que me apetece dizer ao motorista, como quem entra numa loja...
    :*

     

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