Voz Oblíqua: Sem Raia, nem Ralidade
 
    The Voice Mail

 

Voz Oblíqua

Voz: [subst. fem.] Produção de sons emitidos no ser humano pela laringe com o ar que sai dos pulmões; grito; clamor; linguagem; fig. opinião; poder; inspiração; conselho; sugestão. Oblíqua: [adj. fem.] enviesado; torto; vesgo; fig. indirecto; dissimulado; ambíguo; dúbio.
 
 
 

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    Sem Raia, nem Ralidade Terça-feira, Março 27, 2007

    São exactamente 20h. Em menos de cinco minutos vou ouvir uma porta bater. Será ela a entrar em casa. É-me fácil traçar o seu percurso no apartamento estando apenas atenta ao som dos seus passos. São as indiscrições das construções modernas.

    Dirigir-se-á primeiro ao quarto, onde despirá o papel de profissional de sucesso, passará em seguida pelo quarto-de-banho, onde se refrescará das vicissitudes da sua vida diária, em muito pouco tempo chegará à cozinha para preparar o repasto. Terá tempo ainda de se deter por dois minutos, não mais que isso, na selecção da voz que a irá namorar durante o serão.

    Criteriosa na sua escolha, estará longe de sequer imaginar que haverá alguém expectante debaixo do seu chão, alguém que ansiará adivinhar a harmonia. Tomara que se envolva e me deixe envolver na densidade de Jeff Buckley ou na feminilidade de Kate Walsh. Nessa altura suspirarei na evidência de que nada a fará erguer a voz. Porque ele está quase a chegar...

    Por entre os acordes da melodia reconhecerei ainda o som da água que se escorrerá por entre as fendas do lava-loiça, e rogarei para que ele se atrase num semáforo indolente. Ela concentrar-se-á no preparo de uma daquelas iguarias que todos os habitantes do prédio conhecem de cheiro.

    Sem raia, nem realidadeDevota e confiante, todos os dias ela regista os seus costumes em prol daquilo que os uniu. Talvez ainda o ame. Talvez esteja apenas confusa na ambiguidade e obscuridade de sentido com que se embrulha o amor. Talvez até já se tenha esvaído da sua lembrança o que a levou a dizer-lhe um dia “até que a morte nos separe”. Mas ela cumpre um outro papel na perfeição, mesmo quando despe a cor que a nomeia executiva: é companheira exímia em contrato sem termo.

    Ainda antes das 21h hei-de ouvir o som agudo e assertivo dos seus pneus a travar no asfalto. A porta do carro será batida em acutilância, e os sapatos negros sempre bem lustrados pelas cuidadosas mãos femininas apressar-se-ão pelos degraus curtos. A mesma porta que assistiu serena à entrada dela, será agora inóspita na sua recepção. Nem as formas inanimadas são indiferentes àquela presença. Um brado encontrará eco naquelas paredes que se adivinham lívidas, e a súplica definirá todos os significados e significantes daqueles dois estranhos, que outrora foram plural majestático.

    Espectadora assídua de uma ruptura inevitável esquadrinho a real autoridade:

    valerá a pena cansar-se corpo e coração no respeito a um papel notariado, ou será o manifesto “para a vida” uma mediática expressão a uma só voz?

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    1 Comments:

    At 28 Março, 2007 18:19, Blogger mnica ;* said...

    não sei... talvez seja a forma mais comum (e por isso mesmo a menos questionada por tão cómoda que é) de não nos afogarmos sozinhos no meio do mar de muitas coisas, muitos delas vazias...

    talvez seja a forma carente de tentarmos não ser ilhas!

    talvez seja a dificuldade de nos amarmos a nós mesmos e temos de dar esse amor a outrém...

    não sei...
    acho que é porque acreditamos! Que pode ser mesmo para sempre! que seremos amados para sempre...
    Que vai ser o nosso colo de velhice, de roupão pelas pernas, a rabojar com a música...

     

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